Uma das telas representa uma chita às pintas às voltas numa jaula no Jardim Zoológico. O comentário anexo da Maria Condado refere algo que li como um devir animal da pintura; - expresso neste caso específico pelo sofrimento concreto do animal transmutado no desejo da espiral que ocupe todo o plano da tela. O processo desta liberação, induzida das energias latentes nos planos de tinta, recorre aqui de um animal capturado duplamente; - numa jaula e numa câmara fotográfica. Uma rede de ambiguidades instala-se e será interessante verificar como a autora se detém perante a actual exposição, como uma possível charneira para evoluções futuras no trabalho.

A primeira ambiguidade relaciona-se com o que se representa. O animal em desespero ou tédio evolui por elipses, as mesmas elipses que universalmente simbolizam o ultrapassar definitivo das formas de pensamento oriundas do estatismo aristotélico. Trazer crise ao cutâneo seria o objecto desta pintura elíptica, insegura nos seus equilíbrios, desenquadrada, desengonçada. Esse desejo explosivo é expresso com a sua antítese que se revela num verdadeiro gosto apolíneo pelo jardim, enquadramento natural, nos círculos traçados na água, essencialmente nessa linha de horizonte matriarca, arquitrave referencial para o olhar. Mesmo o animal que no seu movimento destrói o horizonte pela elipse e pelo desejo das três dimensões, exibe no centro do desenho as manchas da pelagem, artifício de fixidez; - pintas. Ponto. A sua pele prende o olhar. A convulsão pictórica na pintura da Maria resulta do diálogo contraditório entre o estático cerebral e o dinamismo transgressor; o segredo não está na performatividade do gesto explosivo da pintora, mas na condução inteligente do olhar à experiência de crise. Esta condução articula-se conscientemente neste corpo de trabalho com representações de ruina.

Toda a exposição insurge-se contra uma prática do pictórico pelo pictórico e tal verifica-se na escolha do que se representa. Por um lado as formas ruinosas traduzem directamente o abandono e a crise, sublinhando a forma-documental de todo o projecto, mas por outro, o animal-menir e a opulência botânica da matéria pintada fazem muito mais ao remeter a contra-gosto e de modo subterrâneo, para o erotismo. Mas é preciso sublinhar sempre que esta insurreição não se pode fazer totalmente com o representado; - este por muito importante que seja é sempre pretexto para a pintura. Também não o será por uma academia do moderno, ou seja, pela destruição das estruturas linguísticas da representação pela descoberta da linguagem matricial e autêntica das formas puras. O devir animal do pictórico trabalha no resvalar desta pele animal que se borra na totalidade do espaço, excessiva. As manchas de pele serão as linhas ou os sulcos deste desvio incessante ao conforto; um chita-tigre: e dos maus. No momento tal não sucede. A chita ainda está sob captura.

A fotografia é o meio desta captura; tem sido o meio e a besta terrível de grande parte da pintura recente cá e em quase todo o lado; a sua utilização estruturante, geradora de situações provoca uma nova contradição. Como matriz de sujeição do gesto é também o campo de experiência para a subversão e superação, estratégia vital da pintura que reconhece a especificidade própria dos meios. A singularidade de cada devir animal-pintura estará na qualidade e na vontade deste ser sobre o plano do fotografado.  Não será então por acaso que o jardim e a ruina sejam tão caros a esta pintura. O ser vegetal é seu modo de existência e a prática de uma desconfiança profunda sobre a vulgarização da imagem. A pintura da Maria tem até aqui agido como uma espécie de desfiguração protozoária sobre as imagens digitais. A promessa animal poderá levar a um novo grau de desfiguração mas agora incidindo sobre o próprio processo de trabalho. Múltiplos estratos, de velocidades, graus de crueldade e arrebatamento; - uma outra liberdade clarividente no uso e consumo da fotografia pela pintura.

Gonçalo Pena, Bergen, 11 de Novembro de 2012