(Entrevista realizada em Agosto de 2013 por Martinho Costa, artista plástico e responsável pela série de exposições Configuração, no Next Room.)


O teu trabalho, de uma forma geral, tem-se centrado sobre o grande género da Paisagem. Digamos que a linha do horizonte tem ocupado as tuas pinturas com alguma persistência, normalmente estabelecendo uma divisão, no plano da Pintura, entre céu e terra. Esse uso é premeditado? Porquê a escolha desse tema?

Sim, nas minhas duas primeiras exposições - “Promised Land” e “Jardim Botânico” - a linha do horizonte era bastante marcada e a divisão entre céu e terra muito forte, especialmente porque essas paisagens eram mais depuradas, com poucos elementos. A partir da exposição “Ocidente”, comecei a explorar perspectivas mais fechadas, mais próximas. Para mim, a linha do horizonte deixou de ser um eixo importante de construção da pintura. Sobre o género da Paisagem, não sei responder por que me interessa constantemente. Nem sei dizer o que é a Paisagem. Mas compreendo as palavras de Cézanne: “Há que ir ao Louvre pela Natureza e voltar à Natureza pelo Louvre.” A Natureza, ou melhor, no confronto com a Natureza, estão contidas todas as questões sobre a vontade criadora do homem - neste caso, a Arte.

Nas tuas paisagens, vejo uma espécie de deslocação do subúrbio para o jardim. Ou seja, enquanto nos teus primeiros trabalhos eram-nos dadas a ver paisagens desoladas, pontuadas com elementos industriais ou arquitectónicos, nos últimos detectamos um enfoque nos jardins e em paisagens mais "idilicas", nos quais esses signos da modernidade são substituídos por elementos/ornamentos vegetais. Por vezes, a figura humana também aparece. Porquê essa mudança?

Eu vivo em Lisboa, sempre vivi. Mas gosto muito de passear pela cidade e pelos subúrbios da cidade. Nas minhas primeiras telas, estava mais presente o que eu via nos subúrbios, no intervalo entre cidade e campo. Interessava-me a ideia de um lugar híbrido.Pensava que a Natureza não se podia pintar, tinha (e tenho) talvez uma espécie de pudor em pintar só a Natureza, pois já está lá tudo! As construções e as figuras humanas incluídas na paisagem aparecem, então, talvez como âncoras a essa minha questão. Nessas composições, havia o confronto entre natureza e construção humana. Talvez agora não esteja a fazer algo de muito diferente, porque os jardins na cidade são também construções humanas. Há um lado artificial que sempre me interessou - como o de poder visitar uma árvore exótica proveniente de outro continente, num jardim botânico no meio da minha cidade.

Nas conversas que temos mantido, falas muito da ideia de paraíso – ou, pelo menos, de uma certa ideia de felicidade – ligada, por um lado à prática (produção) de uma pintura e, por outro, à fruição estética, quando esta é recebida pelo espectador. Quando vejo as tuas pinturas, lembro-me muito da célebre frase do Matisse: “O que eu sonho é com uma arte de equilíbrio, de pureza e serenidade, sem assunto preocupante ou deprimente, uma arte que possa ser para todos os trabalhadores, o mental, o empresário, assim como o homem de letras, por exemplo, um calmante, uma influência calmante sobre a mente, algo como uma poltrona que proporciona relaxamento do cansaço físico.” Achas que a Pintura pode ter essa função, hoje em dia?

Essa questão é difícil de responder, mas muito divertida de pensar. A arte não tem de ter função nenhuma. Ou melhor, talvez a função da arte seja relembrar que nem tudo tem que ter função. Que o mundo é muito mais que dinheiro, trabalho, produtividade, racionalidade e blá blá blá. E Matisse, que era um esteta, sempre esteve mais interessado nessa experiência do Belo. Identifico-me com isso.

Para esta tua exposição, os trabalhos foram feitos no local (os jardins de Lisboa), a partir da observação directa. Numa era dominada pela imagem e pela disseminação de aparelhos que a produzem e reproduzem, em que grande parte dos pintores contemporâneos usam-na como ferramenta de uma forma ostensiva, vejo na tua atitude uma espécie de provocação a este status quo da imagem digital. Como te situas em relação a este facto? Por que recusas a intermediação fotográfica para a produção dos teus trabalhos?

Eu não recuso nada. Já usei a Fotografia como recurso à Pintura e pode ser que volte a usá-la. Mas a verdade é que, neste momento, tive a necessidade de me sentir mais livre. Por um lado, de não estar confinada ao espaço do atelier; por outro, de não usar o auxílio de recurso algum. Apenas o bloco de folhas e os materiais. A exposição intitula-se Trabalho de Campo exactamente por isso - por ser uma espécie de investigação in loco. Senti vontade de experienciar o lugar, de misturar-me nele (e isto não acontece se trabalharmos a partir de uma fotografia). Quando desenhamos à vista, muitas são as questões que se colocam: o que devo incluir, que perspetiva escolher, qual é a figura principal, o que é o fundo. São tantas as possibilidades, ainda mais se estivermos no meio da exuberância da Estufa Fria, por exemplo, onde tudo é espetacular! Penso que a Pintura, acima de tudo, é um espaço de escolhas – escolher o que se quer que fique expresso e cristalizado, escolher e encontrar a própria voz.